sexta-feira, 28 de maio de 2010

Tribunal decreta providência cautelar sobre avaliação



O Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja decidiu manter a suspensão dos efeitos da avaliação no concurso para professores contratados, para o ano escolar 2010-2011.

Recordemos que o TAF de Beja já tinha decretado provisoriamente esta suspensão.

A confirmação, pelo tribunal, da suspensão dos efeitos da avaliação não esgota a questão porque está a decorrer o prazo para recurso do decretamento da providência cautelar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Os serviços como motor do desenvolvimento do país


A revolução dos serviços é um artigo de opinião do JN digno de uma leitura, mas não se poderá aplicar ao nosso país.

Todos os dias tenho de ir à biblioteca da escola e aproveito para ver o que estão a fazer os alunos que aí se encontram.
Quando não há lá nenhuma aula, estão tantos alunos quantos os computadores disponíveis. E a fazer o quê? A jogar. Podem ser simuladores de desportos radicais, combates de naves espaciais, combates de artes marciais ou de guerreiros, ... Mas estão a jogar! Inquiri a funcionária: garantiu-me que é assim todo o dia.
Quando estão a fazer um trabalho orientado por professores fazem copy & paste de informação da Net, cortando frases a meio ou colando duas vezes a mesma frase, e não reparam porque entregam os trabalhos sem os lerem.

Se sabem descarregar jogos, também saberão descarregar a informação de que necessitem quando entrarem no mercado de trabalho. Mas não tenhamos ilusões. Vão procurar um emprego, não tencionam criar uma empresa, a não ser que seja uma loja onde irão vender o que outros produziram. O computador vai ser uma ferramenta útil, tal como o automóvel se tornou indispensável há 3 ou 4 décadas atrás quando se tornou uma ferramenta de trabalho. Mas não vai incentivar a maioria dos portugueses a produzir serviços transaccionáveis.
É uma questão de mentalidade: o português gosta de se divertir, de jogar, de falar pelos cotovelos ao telemóvel ou digitar mensagens no Windows Messenger assassinando a língua. Não é criativo e muito menos perfeccionista. Adora trabalhar no sector terciário mas como vendedor numa loja, empregado num restaurante ou atendedor de telefonemas num call-center. Nada que o obrigue a pensar ou estudar.

Só alguns, os especialmente talentosos, ou os que tiverem pais e professores que os incentivem, vão aprender a produzir serviços que possam ser comercializados em todo o mundo e puxar pela economia. Mas serão a excepção, não a regra. Para a imensa maioria até a produção industrial, se houvesse sector secundário, exigiria competências que não têm. A única saída é apenas a agricultura.

Il politico è mobile






La Donna È Mobile - Giuseppe Verdi

La donna è mobile,
Qual piuma al vento
Muta d'accento
E di pensiero.

Sempre un'amabile,
Leggiadro viso,
In pianto o in riso,
È menzognero.

La donna è mobile,
Qual piuma al vento
Muta d'accento
E di pensier
E di pensier
E di pensier.

È sempre misero
Chi a lei s'affida
Chi le confida
Mal cauto il cuore.

Pur mai non sentesi
Felice appieno
Chi su quel seno
Non liba amore.

La donna è mobil
Qual piuma al vento
Muta d'accento
E di pensier
E di pensier
E di pensier!





O plano de austeridade contado às crianças e ao povo








quinta-feira, 13 de maio de 2010

PEC II: plano de austeridade PS-PSD






Eis o conjunto de Medidas Adicionais ao PEC 2010-2013 que o primeiro-ministro enumerou hoje perante as câmaras das televisões:

1. Antecipação de medidas do PEC
  • Condição de recursos e reforço da fiscalização
  • Subsídio de desemprego
  • Tributação das mais-valias
  • Escalão de IRS de 45%
  • Introdução de portagens
2. Redução da despesa
  • Eliminação antecipada das medidas anti-crise
  • Redução de transferências para o SEE (adopção de medidas de racionalização e saneamento financeiro)
  • Redução de despesas na Administração Central (comunicações, representação, limites de despesa aos Fundos e Serviços Autónomos, cativação de suplementos remuneratórios não obrigatórios, congelamento de admissão de pessoal)
  • Redução de 5% nas remunerações dos titulares de cargos políticos e gestores públicos
  • Redução despesas de capital
  • Redução da transferência para as Administrações Regionais e Locais ao abrigo da Lei de Estabilidade Orçamental
3. Aumento da receita fiscal e contributiva
  • IVA: aumento de 1% na taxa normal, na intermédia e na reduzida
  • Sobretaxa sobre o rendimento das pessoas singulares e colectivas:
    • IRS adicional de 1% até ao 3º escalão e 1,5% a partir do 4º escalão. Adicional de 1,5% nas taxas liberatórias aplicáveis.
    • IRC adicional de 2,5% incidente sobre lucros tributáveis acima de 2 milhões de euros.
  • Sobretaxa com incidência nas operações de crédito ao consumo
4. Reformas estruturais
Prosseguir o programa de aprofundamento de reformas estruturais: saúde, educação, energia, simplificação administrativa, economia digital.


No final respondeu apenas às questões postas pelos três canais de televisão:











E deixou uma pergunta para o ministro das Finanças:





sexta-feira, 7 de maio de 2010

ME acata decisão do tribunal sobre avaliação




O ME confirmou ao PÚBLICO que, "dando cumprimento à decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, o Ministério da Educação ocultou ontem os campos referentes à avaliação de desempenho docente da aplicação".

O novo manual de validação electrónica das candidaturas, publicado hoje no sítio da Direcção-Geral de Recursos Humanos do Ministério da Educação (DGRHE), já não integra os itens 4.5, 4.5.1 e 4.5.2 respeitantes à avaliação de desempenho.

O manual dá instruções aos directores dos agrupamentos que, entre hoje e 10 de Maio, terão de validar as candidaturas apresentadas pelos professores contratados que neste ano lectivo prestaram serviço nas suas escolas.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tribunal condena ME por desobediência


O Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja condenou hoje Isabel Alçada "no pagamento de sanção pecuniária compulsória", cujo montante diário foi fixado em 8% do salário mínimo nacional mais elevado em vigor.

Esta multa aplica-se a partir do passado dia 4 e "até ao dia em seja feita prova de que foi dado integral cumprimento" ao decidido por aquele tribunal na terça-feira.



Ontem, 5 de Maio, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) já havia comunicado que requerera a execução do decretamento provisório da providência cautelar:

"Perante o acto de desobediência assumido pelo Ministério da Educação, que até hoje de manhã não aboliu do formulário electrónico os campos referentes à avaliação de desempenho (campos 4.5.1 e 4.5.2), a Fenprof já requereu, junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, a execução imediata da sentença"

E alegava que, com este procedimento, o Ministério da Educação "incorre em responsabilidade civil, criminal e disciplinar e de forma agravada pelo facto de, publicamente, os seus responsáveis assumirem aquele acto de desobediência".

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Taxa de juro quadruplica em nova emissão de dívida nacional



Portugal colocou, hoje, uma emissão de 500 milhões de euros em bilhetes do Tesouro.
Nesta operação de financiamento, segundo dados do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), a taxa de juro foi 2,955%. Esta taxa é quatro vezes superior à registada na última emissão a seis meses, realizada em 3 de Março, que ficou por 0,739%.

O IGCP é a entidade pública a quem compete, nos termos do DL 273/2007, gerir, de forma integrada, a tesouraria e a dívida pública directa do Estado português.

Esta foi a primeira emissão realizada por Portugal desde que a notação financeira da dívida nacional pela S&P baixou em dois níveis, passando de A+ para A-.


Repto à Senhora Ministra da Educação



Lança-se um desafio à Senhora Ministra da Educação para mandar gravar em vídeo uma aula de cada um dos 2957 professores classificados com "Excelente". E que seja carregada no Portal da Educação, para que todos os portugueses, em especial os pais e alunos, possam apreciar a excelência desses docentes.

Porque cumpriu-se a legislação da avaliação do desempenho e todos estes docentes tiveram, pelo menos, 2 aulas assistidas, não é verdade?

Se tiver alguma dificuldade converse com o seu colega da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que ele conhece uma boa equipa.


Mas apresse-se, Senhora Ministra, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) está quase a desembarcar no aeroporto de Lisboa.


Provedor de Justiça pede para avaliação não influenciar concurso docente



O Provedor de Justiça comunicou à Fenprof, na sequência de queixas desta federação de sindicatos "que se prendem com a consideração da avaliação do desempenho como factor de graduação dos candidatos" no concurso para professores contratados, no ano escolar 2010-2011, que determinou a abertura de um processo sobre o assunto.

E acrescenta que, analisadas as queixas no plano da estrita legalidade, "foram identificados casos em que a aplicação do factor de ponderação em causa poderá importar tratamento desigual injustificado." Pelo que pede à Ministra da Educação que pondere sobre esses casos.

Tribunal decreta provisoriamente providência cautelar sobre avaliação



O Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja decretou provisoriamente, ontem, 4 de Maio, uma providência cautelar no sentido da não consideração da avaliação do desempenho no concurso para colocação de professores contratados no ano lectivo 2010/2011.
O concurso já terminou, mas de 3 a 6 de Maio decorre o período de aperfeiçoamento das candidaturas.
Encontrando-se o concurso na fase de aperfeiçoamento de candidaturas, o Ministério da Educação (ME) deverá suprimir os campos do formulário electrónico relativos à avaliação do desempenho.
Se não o fizer, hoje, pela manhã, a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) irá requerer junto do Tribunal a execução da sentença proferida.


Um professor classificado com "Muito Bom" recebe mais 1 valor, enquanto um colega avaliado com "Excelente" sobe 2 valores. Até à data, a lista de graduação nacional era elaborada tendo em conta a classificação de curso e os anos de serviço do docente.
Como os directores e coordenadores de departamentos das diferentes escolas públicas usaram métodos e critérios de avaliação variados, corre-se o risco de docentes mal preparados cientificamente subirem administrativamente as suas notas e passarem à frente de quem se esforçou para adquirir conhecimentos nas universidades.
A providência cautelar vai suspender os efeitos da avaliação invocando ilegalidades, mas não resolve o problema político da metodologia da avaliação e da formação dos avaliadores.



Ler o decretamento provisório da providência cautelar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Avaliação ou farsa?


Noticia hoje o Público que a ministra da Educação, informou a Comissão Parlamentar da Educação, Ciência e Cultura, que foram avaliados 103.628 professores e, destes, foram classificados 14.448 com "Muito Bom" e 2957 com “Excelente”.
"Seria manifestamente injusto que os Excelente e Muito Bom neste momento vissem não ser considerada a avaliação do seu desempenho", afirma Isabel Alçada. "A avaliação não é um simulacro que não serve para nada".



É verdade que a avaliação não pode ser um simulacro que não serve para nada. Mas a Senhora Ministra sabe ou, pelo menos, tem a obrigação de saber que na maioria das escolas a avaliação foi uma farsa.

Primeiro porque, com a faculdade de recurso hierárquico para a respectiva Direcção Regional de Educação (DRE) consignada na legislação da avaliação do desempenho, as DRE’s receberam milhares de recursos.
Ora que directiva deu a Senhora Ministra a cada DRE? Reenviar qualquer tipo de recurso à escola para reapreciação.
Obviamente se nas escolas existir um grupo de compadrio formado pelo director, com os subdirectores, coordenadores de departamentos e representantes de núcleos por ele nomeados, ninguém se vai dar ao trabalho de reapreciar a questão. Até porque sabem que as DRE’s não procedem a quaisquer averiguações, indeferindo o recurso com aquilo que a escola disser.
E não venha dizer que são situações pontuais. Veja-se a indiferença dos órgãos de gestão perante os casos de bullying que acabaram por provocar os suicídios recentes de um aluno na EB2,3 Luciano Cordeiro (Mirandela) ou de um professor na EB2,3 de Fitares (Sintra). Atente-se no contencioso dos processos de eleição dos conselhos executivos/directores do Agrupamento de Escolas Inês de Castro, em Coimbra, Agrupamento de Santo Onofre, nas Caldas da Rainha, Escola Secundária da Régua e Escola D. Dinis, de Leiria, em 2009.

Em segundo lugar porque, sendo contemporânea do alargamento da escolaridade obrigatória para 6 anos (1964), sabe que na época nem havia escolas, nem professores suficientes. Montaram-se pavilhões pré-fabricados e criaram-se licenciaturas em ensino para formar rapidamente professores. Tinham cinco anos, como as outras, mas só havia exames nos dois primeiros anos, seguiam-se mais dois de conversa fiada e o último era um estágio pedagógico numa escola.
Depois aconteceu o 25 de Abril e das universidades saíram licenciados com três semestres de passagens administrativas (sem exames). Surgiram as Ciências da Educação a defender que os alunos podiam adquirir competências sem que os professores transmitissem conhecimentos, apenas brincando. Os defensores de pedagogias estritamente activas multiplicaram-se como cogumelos nas universidades e nos institutos politécnicos, entraram na Assembleia da República e instalaram-se no ME.
Construíram-se muitas escolas, bem equipadas, mas admitiram-se professores cientificamente mal preparados, muito permissivos com a indisciplina, sem rigor na avaliação dos alunos, que aderiram de alma e coração às teorias dos técnicos das Ciências da Educação, actualmente conhecidos por técnicos do Eduquês. Teorias essas que contaminam a política educativa, a legislação relativa ao ensino e os programas escolares, com o resultado que está à vista: os alunos estão a terminar o 9º ano sem serem capazes de interpretar um pequeno texto, escrever meia dúzia de linhas sem erros ortográficos e gramaticais, ou resolver um problema simples de Física ou de Matemática.

Alguma vez se separou o trigo do joio? Nunca.
Guterres permitiu-lhes aceder ao topo da carreira em 26 anos e Lurdes Rodrigues promoveu-os a professores titulares, através de um concurso administrativo, permitindo-lhes consolidar os lobbies que já tinham criado nas escolas. Alguns tiveram de pedir ajuda a colegas para abrir a aplicação informática do concurso, não obstante foram nomeados coordenadores de departamentos e núcleos pelos directores e o modelo de avaliação elevou-os à categoria de avaliadores de todos os outros docentes.
Haviam transformado a avaliação dos alunos numa farsa para melhorar estatísticas. Estão a converter a avaliação dos docentes numa tragédia, pois se até aqui só tinham influência na distribuição de horários e turmas, agora podem, e estão, a prejudicar gravemente a carreira dos colegas.
Bastava o ME criar uma base de dados com as habilitações académicas dos 125 mil docentes para concluir que só uma avaliação externa às aulas, feita por professores do ensino superior da área de leccionação, pode garantir que um docente será avaliado por mérito. E criar uma escola pública onde haja, de novo, rigor e exigência.

Senhora Ministra, ao introduzir a classificação da avaliação do desempenho do biénio escolar 2007/09 na graduação profissional, continua a expulsar os bons profissionais da escola pública, a destruir a qualidade do ensino e a impedir a qualificação dos jovens, prejudicando o desenvolvimento económico do país e condenando as futuras gerações a uma vida pior que a dos seus pais.


Plano inclinado XXIV - Educação em debate




terça-feira, 27 de abril de 2010

A S&P desce o rating do país para A-



A agência de notação financeira Standard & Poor's baixou hoje dois níveis o rating de Portugal, de A+ para A-. É a segunda pior classificação de risco da Zona Euro, só superando a da Grécia.
Segundo a agência, a revisão em baixa justifica-se porque "o potencial de crescimento económico irá provavelmente permanecer fraco, limitado pela reduzida competitividade internacional, baixos ganhos de produtividade, estagnação do investimento e queda do crédito a nível doméstico, dada o elevado nível de endividamento do sector privado".

O rating é uma classificação da capacidade de uma determinada entidade – neste caso, o Governo português - cumprir as obrigações financeiras assumidas, i.e. é uma avaliação do seu risco de falência.
Além da Standard & Poor's existem mais duas agências de rating - a Fitch e a Moody's - todas norte-americanas.

Isto significa que a taxa de juro dos empréstimos externos, contraídos pelo Governo para cobrir a dívida pública do país, vai subir ainda mais.

A S&P também desceu a classificação da dívida soberana da Grécia, neste caso em três níveis: passou para BBB+, um nível classificado como junk (lixo).

Os cinco bancos portugueses com notação financeira sofreram igualmente cortes na classificação. A Caixa Geral de Depósitos dois níveis, de A+ para A-, o Banco BPI e BES um nível, de A para A-.
O Santander desceu dois níveis, de AA- para A, continuando a apresentar um rating superior ao de Portugal por ser detido a 100% pelo banco espanhol Santander que tem classificação AA.
Difícil é a situação do BCP cujo rating desceu um nível, mas de A- para BBB+.

Quadro de Desonra



No mercado de Credit Default Swaps (CDS) transaccionam-se os seguros feitos para cobrir o risco de incumprimento dos países nos pagamentos da sua dívida pública. Logo quanto mais elevado é o CDS, maior é o risco que os investidores atribuem a esse país de entrar em falência.


Os CDS de Portugal a 5 anos, que em 22 de Abril estavam em 262,51 pontos base sobem hoje mais de 30 pontos para 307,58 pontos base, tendo o risco de incumprimento do país subido da sétima para a sexta posição, ultrapassando o do Líbano.



Note-se que o risco de falência de Portugal é muito superior ao de Espanha, Irlanda ou países da Europa de Leste.


Quadro de Honra


Com a devida vénia, transcreve-se do blogue Moçambique para todos uma peça da política portuguesa daquele tempo em que os actores conheciam o significado das palavras respeito, dignidade e compromisso:


"Memórias de um Portugal que era respeitado

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me — ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada — dessa missão.
Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo numa altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir, a esta distância, a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: Não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.
Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado — ao tempo Dean Rusk — teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país — Portugal — que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral "perpétuo" da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas, ao tempo, por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar — é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando, há dias, vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado, pública e grosseiramente, pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses, de hoje, nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010
Luís Soares de Oliveira"

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ME corta a ponta da cauda ao dragão da burocracia



Estipulava a lei 3/2008, primeira alteração ao Estatuto do Aluno dos Ensinos Básico e Secundário (Lei 30/2002), nos termos da no seu artigo 22º:

" 2 — Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas, atinja um número total de faltas correspondente a três semanas no 1.º ciclo do ensino básico, ou ao triplo de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos 2.º e 3.º ciclos no ensino básico, no ensino secundário e no ensino recorrente, ou, tratando-se, exclusivamente, de faltas injustificadas, duas semanas no 1.º ciclo do ensino básico ou o dobro de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos restantes ciclos e níveis de ensino, deve realizar […] uma prova de recuperação, na disciplina ou disciplinas em que ultrapassou aquele limite, competindo ao conselho pedagógico fixar os termos dessa realização.
3 — Quando o aluno não obtém aprovação na prova referida no número anterior, o conselho de turma pondera a justificação ou injustificação das faltas dadas, o período lectivo e o momento em que a realização da prova ocorreu e, sendo o caso, os resultados obtidos nas restantes disciplinas, podendo determinar:
a) O cumprimento de um plano de acompanhamento especial e a consequente realização de uma nova prova.


É a ineficácia desta prova e dos consequentes planos de acompanhamento, na prática apenas um acréscimo de burocracia, que o Ministério da Educação vem reconhecer ao fim de mais de 2 anos, segundo notícia do Público, na proposta da segunda alteração ao Estatuto do Aluno:

"[...] o regime da prova de recuperação tem comportado, para os professores, uma sobrecarga de trabalho, sem que se vislumbre um impacto desse esforço na melhoria das aprendizagens e no sucesso escolar dos alunos [...]"


Quanto mais tempo o país terá de esperar por todas as outras alterações necessárias no ensino básico e secundário?


Mind this gap - II



Em mais de uma centena de comentários à notícia do Público "Portugal tem novas armas para travar fuga de cérebros" escolheram-se alguns que podem contribuir para aprofundar a discussão à volta da investigação científica no nosso país:


Anónimo, Lisboa, Portugal. 25.04.2010 11:43
Ciência e desenvolvimento

Por várias razões, não sou exactamente um admirador incondicional de Mariano Gago. Mas também me espanta este discurso miserabilista de tantos candidatos a PhD... Caros, a Ciência não se desenvolve pela Ciência. A razão social para financiar a Investigação não é fazê-lo para esta ser um objectivo lúdico dos seus intervenientes (embora, para os bons investigadores, o seja quase isso). O objectivo último de fomentar a investigação é que possa contribuir para o reforço e progresso do tecido empresarial e da qualidade de vida de todos nós. Não há empresas para empregar Doutorados? Claro que há poucas. Estamos a concluir a primeira geração de Doutorados que encontram os locais tradicionais de emprego (Universidades e Institutos) quase cheios. As alternativas? Ir para o estrangeiro, recorrer ao sub-emprego ou... reforçar o empreendedorismo: criar novas empresas avançadas na área tecnológica que possam gerar emprego e riqueza a todos os níveis da sociedade, PhD incluídos, e sejam uma alternativa (ou variante) tecnologicamente avançada das nossas indústrias tradicionais. Sabemos que este é um sistema com perdas, mas também sabemos que, como na própria Ciência, a qualidade resulta em...


Lurdes Monteiro , Gaia. 25.04.2010 12:01
Doutores e doutores

O ministro MG não tem uma visão de como o país se pode desenvolver pela inovação. Distribui bolsas a torto e a direito, em todas as áreas científicas, sem olhar ao que interessa para o desenvolvimento do país. Quer é aparecer bem nas estatísticas. Dá muitas bolsas mas não sabe escolher as áreas que são importantes para criar empresas e empregos. Para que me serve ter 300 doutorados em antropologia se só tenho 30 em biotecnologias? Vamos lá desmontar estas estatísticas para enganar o Povo.


Anónimo, Localidade, País. 25.04.2010 12:46
Uma completa falsidade!

A quem é que querem atirar areia para os olhos? Esta notícia é completamente falsa e demagógica. A fuga de cérebros é uma realidade em Portugal, ao contrário do que diz esta notícia, que não passa exclusivamente de um disfarce da verdadeira realidade! Não basta lançar números referentes ao aumento do número de bolsas concedidas, como se isso fosse um sinal de um país onde se faz ciência de altíssima qualidade! Temos excelentes grupos de investigação, óptimos investigadores, sim senhor, mas continua a ser um "trabalho", que não é reconhecido como tal! Bolsas que não são aumentadas há mais de 10 anos, ausência de segurança social, 12 meses de bolsa por ano, entre tantas outras coisas que caracterizam uma realidade: este país não reconhece os bolseiros de investigação científica como trabalhadores activos! Olhem para as declarações de IRS dos milhares de bolseiros deste pais e vejam o numero que aparece nos seus rendimentos... 0 (zero), pois este país, que agora vem dizer que anda a travar a fuga de cérebros... considera um investigador como um eterno estudante subsidiado por uma bolsa! Sou bolseiro de investigação científica a acabar o meu doutoramento em Portugal e...


Anónimo, Boston, MA. 25.04.2010 13:10
Sem números...

Eu trabalho no estrangeiro como um postdoc e não pretendo voltar a Portugal. Concordo que a investigação em Portugal esteja melhor pois conheço quem tenha voltado. No entanto é completamente inaceitável que o ministro venha a público dizer que a fuga de cérebros não existe em Portugal, sem apresentar números... Isto revela muito pouco rigor científico de um ministro que até tem formação científica... Sem números esta notícia não faz sentido, assim como esta discussão...


Farto, de atrofiados. 25.04.2010 14:54
Fuga não é o problema

A questão da fuga de cérebros é falsa. o que é preciso é atrair cérebros. Nisso a notícia é clara: "... no primeiro parque português de biotecnologia, o Biocant (Cantanhede), há 150 investigadores e apenas cinco são estrangeiros ." Algo que se passa em todos os institutos de investigação em Portugal. Vejam agora o exemplo do Centro de Regulação Genómica em Barcelona onde num universo de 300 cientistas, mais de 210 são estrangeiros. Isto sim é saber captar "cérebros"... E uns quantos são portugueses. No meu laboratório (20 e tal pessoas), num instituto diferente, havia mais de 10 nacionalidades. Isto é que são dados que mostram trabalho feito e bem feito. Deixar fugir não é o problema, captar é que é importante.


Marco, Lisboa. 25.04.2010 15:26
Números... e a qualidade?

Mais do que a questão de quantas pessoas estão cá ou não estão, existe também a questão da qualidade do trabalho. Quantos alunos de doutoramento da FCT (por exemplo) é que estão a fazer algo de útil para o tecido empresarial Português (ou estrangeiro)? A gerar riqueza real e não uma riqueza abstracta pelo bem da ciência? Quantos dos seus supervisores procuram resolver problemas actuais e ser "de topo" face a "receberem o deles" e irem fazendo uns artigos pouco inspirados (com respectivas viagens de borla...) e em assuntos com mais de 20 anos e sem interesse? Quem é que está a tentar encontrar colaborações com empresas? Muitíssimo poucos! E que pessoa profissional é que tem interesse em trabalhar num ambiente assim? Eu, como actual estudante de doutoramento e ex-investigador num dos maiores centros de investigação privados da Europa digo com clareza: não dá gosto investigar em Portugal e vou sair quando concluir o doutoramento.


Anónimo, Coimbra. 25.04.2010 16:36
O parasitismo na ciência em Portugal

Eu acho que os nossos dirigentes andam completamente fora do mundo ou então andam a brincar e a mentir ao povo porque penso que desconhecem o terreno real sobre o qual falam. Vou dar-vos o meu exemplo. Sou médico, especialista, e o que aprendi na área da virologia foi por minha custa, iniciativa e sacrifício. O meu hospital (Conselho de Administração), interessou-se pelo meu projecto e depois de um estágio de um ano nos Estados Unidos equiparado a bolseiro e à minha custa, quando cheguei comecei a trabalhar dando apoio à transplantação hepática e à sida, enquanto mantinha as minhas actividades clínicas e a fazer a uma especialidade médica. Fiz o meu doutoramento com dinheiro de um concurso que ganhei na FTC. Publiquei artigos e quando tenho a minha equipa treinada para produzir e publicar o actual CA decide integrar o laboratório noutro serviço eliminando-me completamente em termos de carreira, tendo-me sido negado qualquer cargo além de "responsável". Alguém irá lucrar com o meu trabalho e esforço, adquirindo as coisas por via administrativa. Em Portugal quem lucra sempre são os parasitas ligados ao poder ou aos partidos.


Bernardo, Lisboa. 25.04.2010 16:50
Investigação

Investigação científica em Portugal só pontualmente é relevante e por mérito próprio de um grupo restrito de investigadores. No entanto, o padrão comum desta gente é não ir trabalhar, não contribuir para a sociedade (parasitá-la no fundo), fingir que sabe dar aulas nas universidades e publicar periodicamente aquilo a que chamam de paper. Esse paper na maior parte das vezes é aquilo a que eu chamo de toilet paper. Este aparecimento do Ministro a afirmar que Portugal é um exemplo na fuga de cérebros é uma falsidade completa e um encobrimento da realidade. Tanto é que não tem dados para o provar. A massa intelectual portuguesa não estará em Portugal para empregos deploráveis, altos impostos, justiça corrompida, educação miserável, compadrio político, etc. Qualquer pessoa com capacidade e inteligência, possui mais meios (bolsas e investigação a sério) para prosseguir uma carreira científica no exterior. Este será um dos grandes problemas de Portugal que está a tentar ser encoberto, a massa intelectual (jovem principalmente) portuguesa vai emigrar por falta de condições de vida e nenhum deles no seu perfeito juízo entrará no mundo da política para o bem do país.


Nome, RFM. 25.04.2010 17:11
Um artigo muito conveniente.

Os melhores investigadores vão para o estrangeiro. Quem fica em Portugal coloca outro tipo de prioridades (família, casa). As Universidades estão cheias de Professores que nada fazem. Os quadros universitários têm uma média de idades à volta dos 50 anos. Grande parte dos estrangeiros em Portugal são aqueles que são rejeitados nos outros institutos europeus. A FCT avalia o CV dos candidatos com base no número de artigos científicos publicados, independentemente do número de autores envolvidos ou da qualidade da revista científica. O número de bolsas atribuídas aumenta de ano para ano porque há 7 anos que o valor da bolsa não é revisto e porque diminuíram para metade o período de permanência no estrangeiro para Pós-Doutorados. No concurso do ano passado afirmavam que "bolsas de pós-doutoramento no estrangeiro apenas serão atribuídas em condições excepcionais". Andam a "cortar" a possibilidade de adquirir uma melhor formação. Perguntem ao ministro quantas pessoas, sem ser na qualidade de bolseiros, foram contratadas pelas Universidades. Quantos tinham menos de 40 anos? Este artigo não traduz a realidade.


Anónimo, Lisboa. 25.04.2010 20:49
O que é que nós podemos fazer pelo país

Nasci em 1971, numa família de classe média, sem luxos e tradição de estudos, mas nunca me faltou o essencial, a educação. Acabei o ensino secundário onde tive excelentes professores que me inspiraram para entrar na universidade. Na universidade, fiz um Erasmus, acabei o curso, e segui para doutoramento. Depois estive fora 3 anos num pós-doutoramento. Podia ter ficado fora do país, foi uma decisão difícil, mas resolvi regressar, acreditei que podia contribuir para a mudança. O regresso foi complicado e a adaptação ainda mais, outro pós-doutoramento, desta vez no país, mas a produtividade diminuiu brutalmente. Consegui um lugar de investigador e mais tarde um lugar de professor na universidade. Neste momento o meu currículo científico e profissional é bom no contexto Português, ficará atrás de muitos pares dos países mais desenvolvidos. Não faria no entanto nada de diferente, o que consegui foi por mérito e muito trabalho. As oportunidades também somos nós que as criamos se estivermos presentes, mudar o país e a mentalidade exige um esforço colectivo e individual, temos que querer e lutar para construir o país que desejamos, nenhum governo nos vai oferece-lo numa bandeja.


Anónimo, S. Mamede de Infesta. 25.04.2010 23:09
Fuga de cérebros

Isto é um assunto complexo e de estratégia nacional a longo prazo. Algumas perguntas pertinentes a adicionar ao arrazoado:
1 - Quantos portugueses licenciados deixam o país por ano? Existe capacidade do país absorver os licenciados que produz?
2 - Quantos portugueses com um doutoramento deixam o país por ano?
3 - Quantos portugueses com um doutoramento são contratados pela indústria por ano?
4 - Há procura de portugueses com doutoramento por parte da indústria? Quantas empresas organizaram feiras de emprego para doutorados nas universidades?
5 - Existe carreira de investigador (ou de desenvolvimento, ou de investigação aplicada, ou tecnológica) nas empresas? Qual o enquadramento na indústria para um jovem que regressa a Portugal com um doutoramento em Engenharia?
6 - Qual a razão entre o número de doutorados que vai para a indústria e o número de doutorados que vai para a universidade nos EUA? E em Portugal?
Neste momento, provavelmente a capacidade de Portugal produzir licenciados, mestres e doutorados é superior à procura nacional (o que não quer dizer que a percentagem destes na sociedade não seja reduzida face a outros países).


MMR, Portugal. 26.04.2010 00:20
Investiguem senhores jornalistas

1. Qual foi o montante desperdiçado por Portugal, entre 1994 e 2008, de financiamentos europeus para desenvolvimento de infra-estruturas e formação de recursos humanos.
2. Investiguem quanto tempo decorre entre a abertura, pela FCT, de concursos para financiamento de projectos e o efectivo financiamento dos projectos seleccionados.
3. Quantos doutorados e pós-doutorados estão sub-empregados ou mesmo desempregados em Portugal. Nem nos concursos para o ensino básico eles têm hipóteses. Isto seria uma medida essencial para melhorar o nível de formação deste país.
4. Desses 4500 bolseiros quantos ainda estão em Portugal, e desses quais os que sobrevivem com bolsas anuais.
Isto sim seria números da ciência em Portugal.


Anónimo, Esposende. 26.04.2010 01:50
Há melhorias, mas nem tudo está a ser bem feito

Há que louvar alguns esforços para atrair os investigadores. Mas algo que aconteceu o ano passado (e provavelmente acontecerá este ano) foi deixarem de financiar bolsas de pós-doutoramento no estrangeiro. É um tremendo erro, pois é um período fundamental para o desenvolvimento científico e passagem a investigadores independentes dos jovens doutorados. Dá ideia que nos queremos fechar, e isso não é bom. O desenvolvimento precisa de intercâmbio, preferencialmente em instituições estrangeiras de elevado renome. O facto de se fazer um pós-doutoramento no estrangeiro não significa (muito pelo contrário) que o investigador acabe por lá ficar. Em 2009 o regulamento de bolsas foi alterado em Maio e Junho! Tendo em vista o concurso de Setembro! A principal novidade foi que bolsas de pós-doutoramento no estrangeiro passariam a ser financiadas a nível excepcional (quando fosse inequívoco o interesse estratégico para o país - e aqui não tenho objecções), e pela duração máxima de 1 ano! Quem faz ciência experimental sabe que a probabilidade de se conseguir resultados de jeito num ano é quase impossível, ou seja, bolsas lá para fora acabaram na prática, e isto em tecnologia de ponta é um erro.


domingo, 25 de abril de 2010

Mind this gap - I


Triste ver o Professor Mariano Gago prestar-se à divulgação de propaganda. Infelizmente a realidade é outra, e contra estes factos não há argumentos. Aqui fica um excerto:



Desde o início da década de 90, Portugal tem "exportado" cerca de um quinto dos seus trabalhadores com graus universitários, uma taxa que nos coloca a par (em termos relativos) de países como o Afeganistão, Togo, Malawi e República Dominicana (ver tabela abaixo).

Emigration rate of university educated workers - Countries most affected
Haiti
Sierra Leone
Ghana
Mozambique
Kenya
Laos
Uganda
Angola
Somalia
El Salvador
Sri Lanka
Nicaragua
Hong Kong
Cuba
Papua New Guinea
Vietnam
Rwanda
Honduras
Guatemala
Croatia
Afghanistan
Dominican Rep.
Portugal
Togo
Malawi
Cambodia
Senegal
Cameroon
Morocco
Zambia
83.6%
52.5%
46.8%
45.1%
38.4%
37.4%
35.6%
33.0%
32.6%
31.0%
29.6%
29.6%
28.8%
28.7%
28.5%
27.1%
25.8%
24.4%
24.2%
24.1%
23.3%
21.6%
19.5%
18.7%
18.7%
18.3%
17.2%
17.0%
17.0%
16.8%
Source: Docquier and Marfouk (2006)

Por sua vez, outro estudo que analisou os níveis de escolaridade dos emigrantes para os 6 maiores países receptores do mundo (Austrália, Canadá, França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos), mostra resultados similares (Defoort 2008). De todos os países da OCDE, Portugal tem uma das piores fugas de cérebros. Posto de um modo simples, e uma vez mais, pior que nós só a Irlanda. Nem mesmo os países do Leste Europeu têm uma fuga de cérebros tão alta como a nossa (Tabela 2).

Emigration rate of tertiary educated workers
Czech Republic
France
Germany
Greece
Hungary
Ireland
Italy
Netherlands
Poland
Portugal
Romania
Slovakia
Slovenia
Spain
United Kingdom
7.2%
1.7%
3.7%
10.9%
11.1%
28.6%
8.3%
7.6%
12.7%
18.0%
9.2%
7.7%
10.1%
3.3%
14.3%
Source: Defoort (2008)


Alguns emigrantes qualificados com graus universitários enviaram os seus testemunhos para o blogue Mind this gap (Lembrem-se deste vazio).

Chopin, Piano Sonata No. 2 in B-flat minor, Op. 35



I. Grave. Doppio movimento




II.Scherzo




III.Lento
IV.Finale. Presto




Fogo de vista



A descolonização não foi a melhor (...) e o 25 de Abril não conseguiu responder às aspirações justas e fundadas e aos interesses legítimos da maioria dos portugueses.



00:01 Vistoso fogo de artifício brota da Quinta da Atalaia. Com o Tejo em maré baixa, o catamarrã da meia noite da Soflusa, à passagem da enseada do Seixal, parecia deslizar entre esferas em expansão de estrelas verdes e rubras. Pouco depois, subiam rastos de luz do terminal fluvial, a desfazerem-se em estrelas azuis e brancas.

00:10 Sobre os vultos negros das torres das Amoreiras aparecem umas tímidas esferas de fogo.

00:20 Começa o fogo de Almada, também a subir de dois pontos, um à beira rio e outro no alto dos penhascos fronteiros a Lisboa, pareceu-me, com estrondo e miríades de estrelas. Belo fogo de artifício, talvez a beneficiar de alguma ajuda de fogo de vista de Belém.


Ninguém se lembrou de sincronizar os vários lançamentos.

Ninguém reparou na ponte meio às escuras, com a torre sul e os cabos de suspensão do tabuleiro de luzes apagadas.

Ninguém se apercebeu do soberbo panorama que se desfruta, nos lugares da frente dos catamarãs da Soflusa, do conjunto arquitectónico do Terreiro do Paço e das colinas envolventes.
Só os turistas que visitam a capital e que não encontram, nem na estação de Sul e Sueste, nem no terminal fluvial do Barreiro, uma alma capaz de alinhavar uma frase em inglês.


No céu, a Lua em avançado Quarto Crescente, a lembrar a inflação dos juros da dívida pública do país nesta semana, assistiu impávida e serena.

Amanhã celebrar-se-á missa de corpo presente na Assembleia da República.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Erupção vulcânica no Eyjafjallajökull - II



A erupção do vulcão do Eyjafjallajökull, localizado no extremo sul da Islândia, que teve início em 21 de Março de 2010, recrudesceu na madrugada de 14 de Abril.
Agora a erupção ocorreu através da cratera principal no centro do glaciar, provocando inundações devido à fusão do gelo.


Durante uma erupção vulcânica, grandes quantidades de cinzas e gases, principalmente dióxido de enxofre (SO2), são lançadas na troposfera média e superior em concentrações invulgarmente elevadas.

Desde que a erupção recomeçou na quarta-feira, foram expelidas cinzas até à altitude de 10 km.
Ora nesta época o Atlântico Norte está quase completamente coberto de nuvens. À mistura inicial de cinzas vulcânicas com partículas de gelo das nuvens seguiu-se a formação de uma nuvem de cinzas vulcânicas, acima do tecto de nuvens.

Nuvem de cinzas vulcânicas sobre o glaciar Eyjafjalla


Fortes ventos de noroeste empurraram esta nuvem para o norte da Europa.
O Instituto de Meteorologia Islandês, usando dados do satélite Meteosat-9 da EUMETSAT, produziu uma sequência de imagens de satélite onde se vê a nuvem de cinzas vulcânicas provenientes do Eyjafjallajökull a alcançar a costa da Noruega na quinta-feira 15 de Abril, continuando a mover-se para sudeste na direcção do Mar do Norte.
Inicialmente a nuvem apresenta cor preta, devido às partículas de gelo que disfarçam as cinzas mostradas a amarelo-laranja. Mas à medida que a nuvem avança para leste adquire um tom avermelhado, indicando já claramente a presença de cinzas vulcânicas.

Como as cinzas vulcânicas expelidas para a atmostera podem danificar as turbinas dos aviões, as rotas aéreas têm de evitar estas áreas, o que está a ter um impacto dramático no tráfego aéreo europeu e transatlântico.

A nuvem de cinzas vulcânicas, que já se estende desde o Reino Unido até à Finlândia, está a avançar, à velocidade de 25 km/h, para a Rússia e Europa Central, sendo monitorizada continuamente pelo satélite geoestacionário Meteosat-9 da EUMETSAT:




2010.04.15 19:30 a 2010.04.16 06:45 UTC


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Solar Impulse II - O projecto



O protótipo Solar Impulse foi desenvolvido por cientistas e engenheiros da École Polytechnique Fédérale de Lausanne.

Dados técnicos
Tripulação: 1
Envergadura: 63,40 m
Comprimento: 21,85 m
Altura: 6,40 m
Área das asas: 200 m2
Células fotovoltaicas: 11 628 (10 748 nas asas + 880 no estabilizador horizontal)
Peso: 1600 kg
Baterias de lítio: 400 kg (capacidade: 200 Wh/kg, i.e. 80 KWh)
Potência máxima: 4 x 7,6 kW motores eléctricos
Velocidade de descolagem: 35 km/h
Velocidade de cruzeiro: 70 km/h
Altitude máxima: 8,5 km

Com uma envergadura similar à de um Boeing 747 e o peso de um automóvel, terá quatro casulos sob as asas, cada um com um motor eléctrico e um conjunto de baterias de lítio.
As células fotovoltaicas na superfície superior das asas e da cauda geram energia eléctrica durante o dia, que impulsiona o avião e recarrega as baterias para o voo nocturno.
A questão da energia determina todo o projecto, desde as dimensões da estrutura até às restrições de peso máximo.

Ao meio-dia, cada m2 de superfície terrestre recebe 1 quilowatt de potência solar; mas durante o dia (24 h) a média é apenas 250W/m2. Com 200 m2 de células fotovoltaicas e 12% de eficiência na cadeia de propulsão, os motores do avião recebem, em média, 6kW que é, aproximadamente, a potência de que dispunham os irmãos Wright no voo de 1903.

Todavia a principal limitação do projecto são as baterias. Excessivamente pesadas, exigem uma redução drástica do peso do resto do avião. Com uma densidade de energia de 200Wh/kg, o voo nocturno exige 400 kg de baterias, ou seja, mais de 1/4 da massa total do avião.
Só um avanço tecnológico que aumente a capacidade da bateria permitirá um segundo piloto, diminuir a envergadura da asa ou aumentar a velocidade de voo.




Uma animação com três dimensões para sonhar!

Solar Impulse I - Voar com o Sol



Em 3 de Dezembro de 2009 o protótipo de um avião propulsionado pela energia solar, o Solar Impulse, descolou pela primeira vez, tendo percorrido 350 m à distãncia de 1 m do solo.
Este pequeno voo, em que o aparelho utilizou a energia da sua bateria, destinava-se a obter informação sobre o seu comportamento (reacção aos comandos, aceleração, distância de travagem, ...).





Para os pioneiros Bertrand Piccard e André Borschberg e a equipa do Solar Impulse o sucesso desta experiência foi a realização do sonho de construir um avião propulsionado por energias renováveis e a recompensa por 6 anos de trabalho muito intenso.

Deu-se então início à fase seguinte: a montagem do painel fotovoltaico nas asas para os testes de voo solar.
Hoje, no aeroporto de Payerne, na Suiça, fez-se história:





O Solar Impulse, movido pelos seus quatro motores eléctricos alimentados pela energia captada pelos painéis solares das suas asas, elevou-se no ar pelas 10:30 (GMT+2:00) e voou durante 1 hora e 27 minutos, tendo atingido 1,6 km de altitude e a velocidade de 55 km/h.

O próximo objectivo será a realização, em 2012, de um voo de circum-navegação.


terça-feira, 30 de março de 2010

Large Hadron Collider (LHC)







Tudo começa com a ionização dos átomos de hidrogénio, i. e. retira-se ao átomo de hidrogénio o seu único electrão ficando o protão.
Depois os protões entram num acelerador linear onde são acelerados por um campo eléctrico até atingirem 1/3 da velocidade da luz.

domingo, 28 de março de 2010

Society



Oh, it's a mystery to me.
We have a greed with which we have agreed.
And you think you have to want more than you need,
until you have it all, you won't be free.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely without me.

When you want more than you have, you think you need...
And when you think more than you want, your thoughts begin to bleed.
I think I need to find a bigger place.
Cause when you have more than you think, you need more space.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely without me.
Society, crazy indeed.
I hope you're not lonely without me.

There's those thinking, more or less, less is more.
But if less is more, how you keeping score?
It means for every point you make, your level drops.
Kinda like you're starting from the top...
you can't do that.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely without me.
Society, crazy indeed.
I hope you're not lonely without me.

Society, have mercy on me.
I hope you're not angry, if I disagree.
Society, crazy indeed.
I hope you're not lonely...
without me.

McCandless, 1968-1992. Morreu por inanição.



quinta-feira, 25 de março de 2010

XXVIII Olimpíadas Portuguesas de Matemática



60 alunos oriundos de escolas do Norte, do Centro e do Sul (20 de cada região) reuniram-se hoje, em Évora, para disputarem a final das XXVIII Olimpíadas Portuguesas de Matemática organizadas pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

Metade compete na categoria A (8º e 9º anos do 3º ciclo do ensino básico) e a outra metade na categoria B (ensino secundário).

"As provas são individuais e cada aluno vai ter que resolver a sua, sem ajuda de computadores, nem de livros, só com o seu material de escrita e de desenho", disse Joana Teles, da direcção da SPM, precisando que o "conjunto de problemas de matemática" tem que ser resolvido "num determinado tempo".

Esta competição vai ser alargada a alunos desde o 3º ano do 1º ciclo do ensino básico, dado o interesse manifestado pelas escolas, que "também é da SPM, para incentivar o gosto pela resolução de problemas cada vez mais cedo", frisou.


Plano inclinado XVIII - Actividade Empresarial em Portugal






Acertadas estas palavras do Engenheiro Henrique Neto, a merecerem relevo:


"De todos os problemas que a Educação em Portugal tem, há um factor absolutamente determinante que é a cultura científica.
Não é possível adoptar novas tecnologias, não é possível as empresas modernizarem-se com quadros opinativos.
(…) Não calculam o que é ter uma empresa, meia dúzia de engenheiros e cada vez que há um problema [darem uma opinião], em vez de definirem, numa página, qual é o problema, qual é a causa e qual é a solução. Em qualquer cultura, qualquer pessoa que é engenheiro sabe que tem de fazer isto.
Se reunirem meia dúzia de engenheiros à volta de uma mesa são seis opiniões, nenhuma delas cientificamente fundamentada. A sociedade portuguesa não é científica, não tende a valorizar os números, os dados, a ciência.

(…) As universidades devem procurar a verdade, o rigor, a exactidão. Temos um governo que faz a política de dar números falsos, errados. (…) Os empresários não têm informação credível.

Como é que é possível numa Europa, num Mundo de elevada competência, com pessoas nas empresas e também nos estados que estão no topo das carreiras universitárias, ou políticas, ou empresarias, [sobrevivermos] com os aprendizes de feiticeiro que existem no nosso país.
"


terça-feira, 23 de março de 2010

Proposta de reajustamento do ensino não superior


Todos os que trabalham em escolas, professores, assistentes técnicos ou operacionais, se apercebem que as crianças e os adolescentes manifestam uma enorme diversidade de características vocacionais e de aptidões a exigir respostas educativas diferenciadas. Por isso geram-se consensos de que, a partir do 2º ciclo do Ensino Básico, os alunos devem dispor de duas vias de ensino:

• A via humanístico-científica
• A via tecnológico-profissionalizante

Estas duas vias de ensino poderão existir em qualquer escola do 2º e 3º ciclos e Secundário, terão essencialmente os mesmos programas, com a via profissionalizante a beneficiar de alguma redução na extensão dos mesmos para que os alunos possam optar, em cada ano curricular, por uma ou duas disciplinas ministradas por profissionais de empresas do concelho a que a escola pertence, nas instalações da empresa, ou da escola sempre que esta disponha dos equipamentos adequados.

Todas as aulas deverão ter a duração de 50 minutos e ser intercaladas por um intervalo de 10 minutos, podendo distribuir-se tempos lectivos consecutivos à mesma disciplina.
As áreas disciplinares não curriculares (Estudo Acompanhado, Área Projecto e Formação Cívica) deverão ser extintas. Não obstante consideram-se as crianças e os adolescentes como seres em crescimento físico e intelectual que têm de estruturar a sua personalidade e adquirir hábitos de trabalho.
Por isso preconiza-se que os tempos lectivos actualmente atribuídos àquelas áreas disciplinares sejam adequadamente redistribuídos pelas disciplinas curriculares, para que os trabalhos e a formação cívica sejam feitos em relação com os conteúdos programáticos das várias disciplinas do curriculum.
Além das aulas pode, e deve, continuar a haver actividades extra-curriculares como os jornais escolares, e outros clubes, bem como as visitas de estudo. Mas planificadas como actividades de complemento aos conhecimentos que são transmitidos nas aulas e realizadas após estas.

Os conhecimentos e as aptidões adquiridas pelos alunos serão avaliados em exames nacionais, obrigatórios e únicos no final do 1º, 2º e 3º ciclos e Secundário, e todos os alunos reprovados na 1ª época (Junho), nalguma disciplina, poderão repeti-la na 2ª época (Julho).
Os alunos da via humanístico-científica, que voltem a reprovar, seguirão para o ciclo seguinte na via profissionalizante. Os alunos que já frequentam a via profissionalizante prosseguirão normalmente os seus estudos. Todos os alunos poderão regressar à via humanístico-científica desde que obtenham aprovação num futuro exame nacional do ciclo em que reprovaram.
Os alunos serão classificados numa escala de 0 a 20, excepto no 1º ciclo, e a classificação de exame entrará no cálculo da classificação final com um factor de ponderação de 50%. No 1º ciclo será preferível usar uma escala com cinco níveis, usando palavras comuns que exprimem uma avaliação de qualidade como sejam Medíocre, Insuficiente, Suficiente, Bom, Muito Bom.

A extensão da escolaridade obrigatória até ao 12º deve ser adiada por 9 anos, para preservar a qualidade do ensino nas escolas secundárias.

Finalmente uma palavra para o trabalho dos animadores culturais que é altamente meritório e imprescindível na integração social e escolar dos alunos, sobretudo nos territórios educativos de intervenção prioritária (TEIP). Mas não se deve confundir a docência com a animação cultural.

Os professores devem preocupar-se com o contexto social e a saúde dos seus alunos e detectar problemas, encaminhando os de cariz social para o gabinete de Ciências Sociais e os de saúde para o gabinete médico.
Devem ocupar-se a desempenhar a tarefa que lhes compete no desenvolvimento cultural humanístico, científico e tecnológico da sociedade portuguesa: ensinar.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Erupção vulcânica no Eyjafjallajökull - I


O vulcão do Eyjafjallajökull (glaciar Eyjafjalla), situado no sul da Islândia e considerado um dos menos activos no país, entrou em erupção pouco antes da meia-noite de sábado, 20 de Março de 2010.

O Eyjafjallajökull, ou Glaciar das Montanhas da Ilha (jökull=glaciar, fjalla=montanhas, eyja=ilha), é o sexto maior glaciar do país e recobre montanhas que há milhares de anos, antes do oceano ter regredido 5 km, se situavam numa ilha costeira.


A erupção ocorreu numa fissura de 0,5 km, localizada 8 km para leste da cratera principal do vulcão, numa zona entre os glaciares Eyjafjalla e Mýrdals chamada Fimmvörðuháls.


O vídeo, feito pela Guarda Costeira islandesa, revela o belo espectáculo da lava vermelho alaranjada, qual flor de fogo brotando do gelo, a reflectir-se na superfície azul translúcida do glaciar:






A Islândia é um país localizado no oceano Atlântico, numa região onde a Crista Média Atlântica emerge como uma ilha.

A Crista Média Atlântica é uma cordilheira submarina criada, no fundo do oceano, pelo magma que ascende através de fracturas da crosta provocadas pelo afastamento de duas placas tectónicas: a norte-americana e a eurasiática, no Atlântico Norte, a sul-americana e a africana, no Atlântico Sul.


Estas fracturas provocam uma descompressão sobre os materiais do manto, camada subjacente à crosta, que fundem produzindo o magma. Este sobe através da crosta e sai pela cratera do vulcão formando rios de lava.




Daí a grande actividade vulcânica que tem ocorrido neste país ao longo dos séculos, ao ponto de Júlio Verne ter iniciado a sua Viagem ao Centro da Terra na cratera de um vulcão extinto da Islândia, o do Snæfellsjökull.

O vulcão do Eyjafjallajökull entrou em erupção em 920, 1612 e, mais recentemente, entre Dezembro de 1821 e Janeiro de 1823.
No Mýrdalsjökull existe um vulcão subglaciar, o Katla, com uma câmara magmática de muito maior dimensão, cujas erupções habitualmente são desencadeadas pelas do vulcão do Eyjafjallajökull.


O arquipélago dos Açores é outro local de afloramento da Crista Média Atlântica.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Resistir, ou partir?


A agitação social que varreu o país, a seguir ao 25 de Abril, estendeu-se aos estabelecimentos de ensino. Deixou de haver aulas nas escolas primárias, assim como nos liceus e nas instituições do ensino superior.
O liceu Pedro Nunes, onde Rómulo de Carvalho leccionava, não escapou à confusão geral. A poucos meses da aposentação, decidiu antecipá-la e retirou-se do ensino:


"Não se conseguia fazer nada. Os rapazes não deixavam. Andava tudo numa grande turbulência. O liceu estava guardado por rapazinhos de lá. Rapazitos, adolescentes. Tinham um pauzinho na mão e quando eu chegava à porta um deles batia-me com o pauzinho no ombro e dizia assim: — Este pode entrar —. E eu entrava e ia até ao laboratório fazer qualquer coisa. Mas não era para dar aulas, porque ninguém aparecia. (...)

Não acredito nos seres humanos. Não acredito na capacidade dos homens fazerem qualquer coisa socialmente boa, só são capazes de fazer qualquer coisa segundo os seus interesses pessoais. Ou seja fascismo, ou seja democracia, os homens ou aproveitam a dureza do fascismo para obrigarem os outros a fazerem aquilo que desejam, ou aproveitam a liberdade das democracias para fazerem o que podem em seu proveito."


Ai Heráclito, que se pode entrar duas vezes no mesmo rio.


Recordar o Poema para Galileo



Poema para Galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar — que disparate, Galileo! —
e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou a vê-las — ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão





quarta-feira, 17 de março de 2010

Sidereus Nuncius


Galileo estava ciente que as suas observações com a luneta astronómica iriam mudar radicalmente a visão do Universo e libertar o pensamento e o conhecimento da autoridade exercida por Aristóteles desde a Antiguidade Clássica, durante quase dois mil anos.

Decide, então, comunicar parte dessas descobertas aos seus contemporâneos num livro subtilmente intitulado Sidereus Nuncius, que significa O Mensageiro das Estrelas.


Frontispício de Sidereus Nuncius


Publicado em Março de 1610, em Veneza, dedicou-o a Cosimo II de Medici, grão-duque da Toscânia, que o nomeia matemático da corte.

Ao longo das 60 páginas, escritas em latim, descreveu o aspecto montanhoso da superfície lunar, revelou a existência de inúmeras estrelas até então desconhecidas e mostrou que Júpiter possuía quatro satélites a que chamou Medicea sidera (Astros mediceus) em honra do seu protector.






























Cinco desenhos da Lua nas fases de Quarto Crescente (dois) e Quarto Minguante (três), mostrando a linha de separação entre as regiões diurna e nocturna que é regular nas planícies e quebrada nas montanhas.



É a tradução deste livro para português, feita pelo físico e historiador da ciência Henrique Leitão, que hoje foi apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian
.

Galileo Galilei


Neste retrato, um dos últimos de Galileo, o físico e astrónomo de Pisa está sentado numa cadeira sobre cujo braço apoia a mão esquerda, enquanto segura na outra mão uma luneta astronómica.

Não foi Galileo o inventor do telescópio de refracção. Mas, ao aperfeiçoar este instrumento com o fito de observar objectos distantes, construiu em 1609 a primeira luneta astronómica que lhe permitiu descobrir as montanhas da Lua e quatro luas de Júpiter — Io, Europa, Ganimedes e Calisto.

As suas observações astronómicas levaram-no a defender o sistema heliocêntrico, proposto por Copérnico, refutando a antiga crença de que a Terra era o centro do Sistema Solar e do Universo.
E também a concluir que, ao contrário do que se pensava na época, a Via Láctea não era uma nuvem mas sim um conjunto de estrelas de que o Sol fazia parte.

A defesa do sistema heliocêntrico criou-lhe um conflito com a Igreja Católica Romana que lhe instaurou um processo e, após vários meses de prisão sob ameaça de tortura, o forçou a fazer uma retractação pública e o condenou a prisão domiciliária até à morte.


Mas o que tornou Galileo num dos maiores vultos da Ciência foi a criação de uma nova metodologia para estudar os fenómenos físicos, substituindo o método aristotélico, puramente racional e que provocara a estagnação do conhecimento durante a Idade Média, pelo método experimental. E o uso da linguagem matemática para traduzir os resultados das observações.

Em 1590, o estudo da queda dos corpos, usando o plano inclinado para retardar o movimento, permitiu-lhe formular a lei dos percursos dos graves serem directamente proporcionais ao quadrado dos tempos.
E também descobrir o princípio da inércia, um dos axiomas da Mecânica Newtoniana que, com a constância da velocidade da luz no vácuo, constitue o par de postulados em que se baseará a futura Teoria da Relatividade Restrita.