A Palestra Nobel que José Saramago proferiu perante a Academia Sueca, em 7 de Dezembro de 1998, bem como a Autobiografia que redigiu para a Fundação Nobel, são documentos onde podemos colher quase todos os ingredientes necessários para produzir sucesso escolar:
- Uma criança ávida de saber;
- Um familiar próximo (o avô), repositório de cultura (popular), que estimula a curiosidade do miúdo com as suas histórias;
- Professores com boa formação intelectual, na escola primária, no liceu e na escola técnica, que incentivam a aprendizagem do aluno.
E falhou o Estado Social iniciado pelo Liberalismo oitocentista: se já se dispunha de bons professores e propinas de custo simbólico em todos os graus de ensino, escasso era o parque escolar, que só começou a ganhar dimensão no 3º quartel do séc. XX, e falar em bolsas de estudo seria figura de retórica.
Daí José Saramago ter sido obrigado a percorrer uma via-sacra pelas profissões de serralheiro mecânico numa oficina de reparação automóvel, escriturário, jornalista, tradutor, até cumprir a sua vocação de escritor.
Falhou para ele e falhou para muita gente. Ao ponto de se formar uma forte corrente contestatária na sociedade portuguesa que desencadeou, após o 25 de Abril, a construção de um Superestado Social.
Bem aproveitada pelos chicos-espertos do "eduquês", que se apoderaram da escola pública e lhe impuseram a sua ruinosa política educativa, esta corrente ideológica foi prontamente encabeçada por políticos interesseiros e medíocres.
Agora começam a esvoaçar no horizonte os abutres que vêm banquetear-se com o cadáver da escola pública.
Mas se a escola pública conseguir ressuscitar das cinzas, como a fénix da mitologia clássica, no futuro surgirão novos aprendizes que se elevarão acima dos mestres.
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